segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Som de jardim de sonho


Deitada com os pés pro alto, apoiados na parede branca. A única luz que hábitava era aquela das seis da tarde, vinda de fora pela janela. Dalí admirava o pôr do Sol entre os prédios. A mesma lista de reprodução tocava, não mais me agradava.
Tudo estava quieto demais, bom demais. Demais, nunca mais foi o mesmo, sem mais nem menos, se tornou você. De mais, mais de. Mais de você.
Enquanto isso, em outro plano não detectável, celular toca insaciávelmente, sem cansar, incessante. Ela conversa comigo, a espera de uma resposta. Não haverá alguma, nada além de nada. Necessária(mente).
Não quero atender, responder, integrar, migrar, apenas observar como quem não vê. Como quem vive bem, ausente. Até onde vai o "precisar"? Hoje é algo, amanhã ultrapassado. Necess(idade).
Alô!?
Olá!! Como está? Senti sua falta.
Assim, atropelado. Não responda nenhuma delas, diga logo quando vem.
As pitangueiras e amoreiras morreram, amora. Agora somos eu e você. Eu você amor e carinho e saudade e abraço e braço e corpo e mente e boca e paz. Ser carinho não foi fácil. Caí e cairei quando precisar, levanto te olhando de baixo pra cima com um sorriso branco estampado na cara. Doce. Ôce, moça. Ôça, oca.
Não sofro não como não choro - sinto falta de você perto de mim fazendo cafuné enquanto escoro meus olhos sob os seus - não choro não como não sofro.
Todo afeto que há no meu ser.

Danço eu; Dança você na dança da Solidão


Se me tornasse desses ecos incontroláveis, desses amores que entortam, que abismam. O que faria?
Se te mandasse um cartão postal cheio de letras delicadas, com o verso comandado pela imagem mais doce possível presente. O mar, daqueles que te arrancam sorrisos e vontade de navegar, com fé. O que faria?
Se viesse, deitasse em minha cama com lençóis  amassados. Apenas daria play n'uma lista de reprodução não planejada, estampada na tela cinza com imagens que vem e vão, numa beleza calma e sadia.
Edith Piaf. Olharia debaixo para cima, calmamente subiria meus olhos por teus pés tortos apoiados a parte traseira no pé da cama. Joelhos a mostra e pernas que me aguardavam. Uma de tuas mãos ao lado do bolso esquerdo do shorts sobe e pega uma das minhas, delicadamente a me rodar; Paulinho da Viola começa no fim da segunda pirueta.
Sorrio sem graça, subo na cama e teu olhar firme não se deixa transviar. Arrumo os travesseiros da forma mais confortável que houver. Me adeito suavemente e nossos olhares que se ajuntam como por encanto, fazem todo e qualquer som alí presente se envolver e se acalmar e se enferrujar perto do som de nossos sorrisos se abrindo.
Você deita e oferece o ombro manso para que apoiasse a cabeça cansada, cheia de pensamentos, serenos.
A música vem voltando calmamente a fazer parte daquele quarto, culpa dos olhares pareados não mais trocados, por hora.
- Não Quero Mais Amar A Ninguém - Não fui feliz, o destino não quis o meu primeiro amor, morreu como a flor ainda em botão, deixando espinhos que dilaceram meu coração (...) Foi beijo que nasceu e morreu sem se chegar a dar -
Ouvi teu sorriso se abrir, seus dentes e boca descolarem. Gargalhadas que me faziam tremer em seu colo a olhar o pequeno feixe de luz que entrava pela janela entre-aberta, Luar.
Era uma noite morna que por mais quente que fossemos, a estabilidade de sentimentos não deixaria nada exceder.
No fim de uma dessas gargalhadas mudas, teu braço direito veio rapidamente, sem que pudesse me mover e me enlaçou pela cintura, trazendo pra mais e mais perto, mais e mais instável. Minha e sua cintura já pareadas se olhavam, meus olhos já fechados sentiam sua respiração, o único cheiro, novo, irreconhecível, era teu hálito doce. Não era Hortelã, nem Eucalipto, era você. Quase gosto de você.
Tudo tão único que pressa era o menos provável. Ficaria alí por horas apenas sentindo seu hálito e respiração mantendo meus olhos instáveis fechados. Intensidade confortante.
Já estagnada naquele momento, quando teu queixo encontra o meu. Sem reação alguma teus lábios apenas acariciam os meus de um lado a outro, o sentindo por completo. Acompanhando minha respiração, os mesmos se entreabrem e essa é a deixa que restava para que se encaixassem perfeitamente. Metade que se encontra que se completa que se alimenta que sacia.
Tua mão direita  desde meu cóccix, passa por todos os altos e baixos de minha coluna até então chegar à minha nuca onde os dedos se entrelaçam com meus fios cacheados. Calma, serena, manuseio perfeito fazendo minha respiração e minha língua te acompanharem sem exitar momento algum.
Minha mão esquerda acaricia teu rosto com as costas, desce ao pescoço, ombro e já toma conta de toda a cintura que se encontrava abaixo da minha. Movimentos contínuos, suaves e enlouquecedores. Mas ainda calmos.
Pude te sentir, cada dobra de seus dedos em movimentos controlados por mim e por sua mão na minha cintura a me levar como numa valsa. Meramente calculado e quente, derretendo. Meus olhos voltaram a encontrar os seus, fixos que fraquejavam em movimentos mais intensos, entrelaçando-se com suspiros.
Já era minha, tua, nossa. Nosso à dois de uma noite apenas que não seria nem mais nem menos nem talvez. Apenas sentimentos adormecidos que num estopim afloraram fazendo a calma virar desejo, pressa. Carinho, explicito ou não. Começou num quarto de janela antiga e vidros embaçados  sofrendo altos, baixos. Abraços longos, beijos em costas de mãos, mãos acariciaram e afogaram esse pudor. Estopim saudável, vidas que continuam seus caminhos, a distância não diminui sentimentos, a saudade não é assassina. O tempo é curador e trás estabilidade para sentimentos inacabados.
É preciso inventar de novo o amor?